sexta-feira, 11 de junho de 2010

Viagem






Sacramento do Crisma da minha filhota








Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé no marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
( Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga


Este poema representa o percurso de vida do Homem. Não importa o destino, apenas importa partir, ir à aventura, ir à procura do “velho paraíso” perdido, do tempo em que era feliz. A vida do homem é feita de esperança, de ilusão e de uma procura incessante. O Homem procura incessantemente essa ilusão e tem esperança de a alcançar. A tendência para desanimar é também uma característica do Homem, quando não obtém os resultados esperados e isso é também salientado neste poema, mas o sujeito poético logo diz “ Mas corto as ondas sem desanimar”, transmitindo aqui também um sinal de esperança, porque a vida é uma aventura em que o importante “é partir, não é chegar”.

A “viagem” representa metaforicamente a vida do homem que é composta por dois momentos:

- os preparativos para o embarque: o sujeito poético aprontou o barco para partir “ Aparelhei o barco da ilusão”, içou apressadamente a vela “Prestes larguei a vela” e partiu rapidamente “E disse adeus ao cais” (vv. 1-2 e 12-13), ou seja o “eu” lírico tomou a decisão de enfrentar a aventura da vida;

- a navegação em pleno mar: o sujeito poético enfrenta “as ondas” (vv. 14-18), lutando com determinação pela concretização do seu percurso pessoal.

Os vocábulos “marinheiro” e “barco” simbolizam o sujeito poético e metaforizam o seu pensamento sonhador (“barco da ilusão” = o barco é o “eu” aventureiro, marinheiro; a ilusão é a busca incessante da felicidade), a crença ou “fé” em si mesmo (“fé de marinheiro”) e a vontade de enfrentar a vida (vida = a “viagem”, “mar”, “aventura”), comandando o seu destino pessoal, traçando-lhe um rumo, tal como o “marinheiro” no comando do seu “barco”. Estes vocábulos simbólicos (“marinheiro” e “barco”) representam a luta incessante do homem pela conquista da felicidade, como sendo a única forma de enfrentar e ultrapassar a angústia existencial provocada pela certeza da morte (vv. 14-17).

O sujeito poético é sonhador, acredita no “sonho” de uma vida marcada pela busca do “velho paraíso” perdido (vv. 1-3 e 5-11). Um paraíso em que o “eu” já viveu e foi feliz “velho” e que quer voltar a encontrar, para de novo sentir a felicidade. É insatisfeito, porque rejeita completamente um modelo de vida limitado “E disse adeus ao cais, à luz tolhida.” (v.13). Determinado, obstinado e persistente, pois insiste na perseguição do seu sonho, na concretização do seu objectivo, apesar das adversidades que poderá ter de enfrentar, como a distância, a traição e as ciladas (vv.3-4 e 15-18). Revela lucidez, pois está consciente de que nem mesmo a “ilusão” pode alterar a precariedade, fragilidade e efemeridade da existência humana (vv.14-17). Aventureiro, porque está pronto a enfrentar a incerteza e o risco próprios da “aventura” (vv.19-20): numa aventura não há a certeza da chegada, assim o importante é partir (como na aventura dos descobrimentos, os marinheiros tinham como certa a partida e a certeza de que a morte viria mais cedo ou mais tarde, não tinham a certeza de chegar, pois tinham também contra si a distância, as ciladas, o mar traiçoeiro e desconhecido).

A utilização do parêntesis introduz uma pausa discursiva que suspende o relato da “viagem”, é uma reflexão em que o sujeito poético explicita os fundamentos da sua atitude, apresentando-os como uma regra de vida que propõe a toda a humanidade: o homem tem um curto espaço de tempo na terra e nesse tempo limitado da sua existência terrena – a única que “nos” é “concedida” – deve ter como ideal a busca, a conquista ou reconquista da felicidade do “velho paraíso”, o éden. O parêntesis evidencia a importância desta tese no poema (o facto de possuirmos apenas “esta vida” e de ser nesta única vida que temos de buscar a felicidade, o “paraíso”, se não procurarmos e atingirmos a felicidade nesta vida, jamais teremos outra possibilidade), isolando-a e conferindo-lhe unidade e autonomia.

“Em qualquer aventura, / O que importa é partir, não é chegar”: estes últimos versos são apresentados como uma espécie de máxima e são importantes do ponto de vista interpretativo, pois neles se encontra a chave – o princípio motor de qualquer “aventura” é a própria busca, e não o objectivo final a alcançar – é deste modo que o sujeito poético encara a vida. Assim se justifica que o “eu” lírico, certo de que a morte é o destino inevitável do homem (vv.15-17), não abdique da sua capacidade de busca e persista na concretização do “sonho” que conferirá sentido à existência humana – o homem deve procurar ser feliz, deve procurar atingir a felicidade plena na única “vida” (“Esta”, a terrena) que lhe “é concedida”.

No poema, “mar” é uma metáfora para a vida. O adjectivo que o qualifica é traiçoeiro. A vida não é muitas vezes como a sonhamos, prega-nos partidas, ciladas, atraiçoa-nos. Por vezes, desanimamos, pois aparecem contrariedades, mas é preciso não desistir e partir em busca da felicidade, porque ela existe, talvez longe “Era longe o meu sonho”, mas está algures à nossa espera. Apesar de ser “longe” o sonho do sujeito poético, isso não o impede de procurar, de partir em busca do “paraíso”, embora sinta que a vida o possa atraiçoar a qualquer momento e sabendo também que a única certeza é a inevitabilidade da morte.

Recursos expressivos

- metáfora:

Barco e marinheiro = sujeito poético

Sonho = felicidade

Mar = vida

Velho paraíso = felicidade (a felicidade do éden)

Larguei a vela = partida para a aventura, pronto para partir em busca do seu sonho

Adeus ao cais = rejeita a vida anterior

- Adjectivação anteposta

“Traiçoeiro o mar”

- Repetição

“Dia a dia”

- Dupla adjectivação anteposta

“errante e alada sepultura”

- Antítese

“…partir… chegar”





Trabalhinho da minha filhota


A fuga das galinhas

Um gestor vale mais do que quem salva vidas e cria (vários tipos) de riqueza como um médico ou um cientista? Qual é o dom especial que possuem para que ganhem muito mais que todos os outros? Não se sabe. Mas essa ignorância não altera os rendimentos.

Mesmo que os resultados empresariais derivem de uma extensa cadeia. Mesmo que todas as empresas devam ter um papel social. Pois é. Os nossos trabalhadores são dos mais mal pagos da Europa, mas os gestores são dos mais bem pagos. Um gestor alemão recebe dez vezes mais que o trabalhador com o salário mais baixo na sua empresa. O britânico 14. O português 32. Mas, segundo um estudo da Mckinsey, Portugal tem dos piores gestores. Logo, quando se fala em reduzir direitos e salários, a quem nos devemos referir? Lógico? Não. Dizem que os bons gestores escasseiam e é necessário recompensá-los. Senão, fogem do país. Ok. Então, é simples. Se são assim tão poucos, ide. Não serão significativos na crescente percentagem de fuga dos cérebros que estavam desempregados/explorados. Depois, contratem-se gestores alemães ou ingleses. Por lá, não rareia tanto a qualidade. Estão habituados a discutir não só ordenados mínimos como ordenados máximos. E sempre são mais baratinhos.


Joana Amaral Dias

3 comentários:

APO (Bem-Trapilho) disse...

Muito bonita a cerimónia. A tua princesa estava uma gracinha com o vestidinho... linda!!!

E cá estou eu para agradecer e retribuir, com imenso atraso, eu sei! Desculpa! O meu tempo não tem dado para mais.

bjinhos e volta sempre! :)

Mona Lisa disse...

Olá Mena

Uma recordação linda da tua filhota!

Não conhecia este poema de Miguel Torga. Obrigada pela partilha.

Gostei imenso do trabalhinho da tua filhota.
Dá-lhe os meus parabéns.

Bjs.

artes_romao disse...

boa noite,td bem?
antes de mais parabéns pelo Crisma da tua filha;)
gostei do trabalho que ela realizou.
fiquem bem,jinhos***