sábado, 24 de fevereiro de 2018

Os três conselhos



OS TRÊS CONSELHOS


Um pobre rapaz tinha casado, e para arranjar a sua vida, logo ao fim do primeiro ano teve de ir servir uns patrões muito longe. Ele era assim bom homem, e pediu ao amo que lhe fosse guardando na mão o dinheiro das soldadas. Ao fim de uns quatro anos já tinha um par de moedas, que lhe chegava para comprar um eidico, e quis voltar para casa. O patrão disse-lhe:
– Qual queres, três bons conselhos que te hão-de servir para toda a vida, ou o teu dinheiro? 
– Ele, o dinheiro é sangue, como diz o outro.

– Mas podem roubar-to pelo caminho e matarem-te.
– Pois então venham de lá os conselhos.
Disse-lhe o patrão:
– O primeiro conselho que te dou é que nunca te metas por atalho, podendo andar pela estrada real.
– Cá me fica para meu governo.
– O segundo, é que nunca pernoites em casa de homem velho casado com mulher nova. Agora o terceiro vem a ser: nunca te decidas pelas primeiras aparências.
O rapaz guardou na memória os três conselhos, que representavam todas as suas soldadas; e quando se ia embora, a dona da casa deu-lhe um bolo para o caminho, se tivesse fome; mas que era melhor comê-lo em casa com a mulher, quando lá chegasse. Partiu o homenzinho do Senhor, e encontrou-se na estrada com uns almocreves que levavam uns machos com fazendas; foram-se acompanhando e contando a sua vida, e chegando lá a um ponto da estrada, disse um almocreve que cortava ali por uns atalhos, porque poupava meia hora de caminho. O rapaz foi batendo pela estrada real, e quando ia chegando a um povoado, viu vir o almocreve todo esbaforido sem os machos; tinham-no roubado e espancado na quelha. Disse o moço:
– Já me valeu o primeiro conselho.
Seguiu o seu caminho, e chegou já de noite a uma venda, onde foi beber uma pinga, e onde tencionava pernoitar; mas quando viu o taverneiro já homem entrado, e a mulher ainda frescalhuda, pagou e foi andando sempre, Quando chegou à vila, ia lá um reboliço; era que a Justiça andava em busca de um assassino que tinha fugido com a mulher do taverneiro que fora morto naquela noite. Disse o rapaz lá consigo:
– Bem empregado dinheiro o que me levou o patrão por este conselho.
E picou o passo, para ainda naquele dia chegar a casa. E lá chegou; quando se ia aproximando da porta, viu dentro de casa um homem, sentado ao lume com a sua mulher! A sua primeira ideia foi ir matar logo ali a ambos. Lembrou-se do conselho, e curtiu consigo a sua dor, e entrou muito fresco pela poria dentro. A mulher veio abraçá-lo, e disse:
– Aqui está meu irmão, que chegou hoje mesmo do Brasil. Que dia! E tu também ao fim de quatro anos!
Abraçaram-se todos muito contentes, e quando foi a ceia para a mesa, o marido vai a partir o bolo, e aparece-lhe dentro todo o dinheiro das suas soldadas. E por isso diz o outro, ainda há quem faça bem.




Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português, 1883


1.               Consegues dizer, exactamente, quando e onde se passa esta história? Porquê?

2.               Nos contos populares, a linguagem é simples, de cariz popular. Seguindo o exemplo dado, sublinha as marcas de fala popular presentes nas frases seguintes e reescreve-as  na norma padrão, mantendo o seu sentido original.

 «- Ele, o dinheiro é sangue, como diz o outro.» O dinheiro é sangue, como se costuma dizer.

«O rapaz foi batendo pela estrada real…»

«…viu vir o almocreve todo esbaforido sem os machos

«…ia lá um reboliço.»

«Disse o rapaz lá consigo

«E picou o passo, para ainda naquele dia chegar a casa.»

«…mas quando viu o taberneiro já homem entrado


3.               Assinala com um V (Verdadeiro) ou com um F (Falso) as seguintes afirmações:

- A literatura oral e tradicional apenas nos foi transmitida através da escrita.    
- A literatura oral e tradicional são apenas histórias sem qualquer importância.   

- Os contos populares, as lendas, os provérbios têm sempre um autor que é identificado. 
    
- Uma das funções destes textos é o entretenimento, durante o convívio entre pessoas de diferentes 
gerações.    
    
- Trata-se de um repertório muito significativo para o povo, já que encerra e perpetua um 
conjunto de ensinamentos morais, condicionando comportamentos e atitudes.  

- As crianças e os jovens só começam a contactar com este tipo de textos quando já sabem ler e escrever.  
    
- A transmissão destes textos dá origem à produção de variantes, pois cada emissor, tendo sido já um 
receptor, altera o discurso que ouviu, acrescentando ou omitindo pormenores.   

- A parábola recorre a animais para dar lições ao homem.  

- A lenda assenta num facto real, num espaço e tempo mais ou menos identificáveis. 



quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Afinidades - Provas de Amor






No topo da Praça da Fruta, paredes meias com o Posto de Turismo da cidade de Caldas da Rainha, encontramos o Restaurante Afinidades,  “um restaurante despretensioso mas que aposta em ingredientes fora de série e numa confecção cuidada e sofisticada que casa o receituário tradicional português com receitas de cozinhas mais distantes”.
A sala, com uma decoração sóbria, mas bastante requintada, é muito acolhedora e confortável. O espaço é bonito e elegante, mas também com o seu quê de informal. Podemos escolher este restaurante para um almoço/jantar despretensioso, simples, com amigos ou familiares. É também o lugar certo para um jantar mais formal, sofisticado, para comemorações ou celebrações. Não esquecendo também os almoços de negócios... Há ainda uma esplanada agradabilíssima. E são estes os pontos de partida para uma experiência à mesa onde não faltam produtos de excelência como a carne Barrosã, o bacalhau  da Noruega e do Canadá (vindos da Mercearia Pena – a mercearia gourmet que é uma das lojas mais antigas das Caldas da Rainha), os melhores frescos da nossa Praça da Fruta, um ex-libris da nossa cidade, e os peixes e mariscos do Mercado do Peixe e da Lagoa de Óbidos.
A coordenação técnica ao nível das bebidas e da cozinha está a cargo dos chefes Jorge Guilherme e Luís Tarenta. 

A acompanhar a carta desenhada pelo chefe Luís Tarenta, podemos contar igualmente com uma vasta carta de vinhos e cocktails e com um serviço atento e dedicado.
Pessoal muito simpático, muito profissional, muito atento e solícito.
É, sem sombra de dúvidas, um dos melhores restaurantes da cidade. Atrevo-me mesmo a dizer - o melhor!
Recomendo vivamente e voltarei certamente em breve!

































segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A Lenda da Moura da Ponte Romana de Chaves



Era uma vez…

 Há muitos, muitos anos, as terras Flavienses eram governadas pelos Mouros. O Alcaide tinha um filho que se chamava Abed e uma sobrinha órfã devido à guerra. Por vontade do Alcaide a bela jovem ficou noiva do seu filho Abed e esta não recusou, pois os Mouros por ali eram poucos e nenhum lhe despertara paixão.
Uns anos depois, os cristãos do jovem reino de Portugal iniciaram a conquista da região de Chaves, tendo mesmo atacado a cidade flaviense. À frente do exército português estavam os cavaleiros Rui e Garcia Lopes, irmãos de D. Afonso Henriques. O Alcaide e o seu filho encabeçaram a resistência Moura e a defesa do castelo. Mas a população da cidade, perante os ataques cristãos, começou a fugir desesperadamente.
Entretanto, o Alcaide e o filho lutavam tenazmente, embora sem grande sucesso.
Numa dessas ocasiões, enquanto apreciava os combates, a moura fixou os olhos num belo jovem guerreiro cristão que ganhava com os seus homens cada vez mais posições no castelo. No mesmo instante, o guerreiro parou a ofensiva. Dirigindo-se a ela perguntou-lhe:
- O que faz uma jovem tão bela num triste espectáculo destes?
- Quero perceber a guerra – disse a Moura
- É uma coisa só para homens – disse o cristão.
- Não é só os homens que são afectados pela guerra - retorquiu a moura - as mulheres e crianças também ficam viúvas e órfãs.
O cristão lamentou o facto e quis saber se ela estava só. Quando a moura respondeu que vivia com o tio, Alcaide do castelo, o guerreiro mandou levá-la imediatamente para o seu acampamento. A luta prosseguiu, entretanto.
O castelo acabou por ser tomado e oferecido pelos Lopes a D. Afonso Henriques. Contudo, a jovem moura manteve-se refém dos cristãos que não a trocaram por prisioneiros feitos pelos mouros. Passou a viver muito feliz com o cavaleiro que a raptara.
Abed, conhecedor da situação, nunca lhes perdoou. Depois de restabelecido de um ferimento de guerra, voltou a Chaves, disfarçado de mendigo. E como não conseguiu aproximar-se da sua apaixonada, um dia esperou-a na ponte. Pediu-lhe esmola. A jovem estendeu a mão para o pedinte e, nesse momento, algo de fatídico aconteceu. Olhando-a nos olhos, Abed disse-lhe:
- Para sempre ficarás encantada sob o terceiro arco desta ponte. Só o amor dum cavaleiro cristão, mas não aquele que te levou, poderá salvar-te. Mas esse cavaleiro nunca virá!
Ouviu-se um grito de mulher. A jovem tinha reconhecido Abed. Contudo, como por magia, a moura desapareceu para sempre. Abed fugiu de seguida. Só as damas cristãs que a acompanhavam testemunharam o sucedido.
Desesperado, o guerreiro cristão que com ela vivia tudo fez para a encontrar. Procurou incessantemente na ponte e até pagou para que lhe trouxessem Abed vivo para quebrar o encanto. Mas a moura encantada da ponte de Chaves nunca mais apareceu e o cristão morreu numa profunda dor de saudade, ao fim de alguns anos.
Certa noite de S. João, cheia de luar, pela ponte passou um cavaleiro cristão. Ouviu, surpreso, murmúrios. Não viu ninguém, mas ouviu uma voz de mulher pedindo ajuda e que lhe disse docemente:
- Estou aqui em baixo, na ponte, sob o terceiro arco.
Estranhou a situação. Procurou sob o dito arco; no entanto, continuava sem ver a moura. Ouviu outra vez a moura que agora lhe dizia estar "encantada" e lhe pedia que descesse e a beijasse para a salvar. Mas o cavaleiro hesitou. Tocou no crucifixo que trazia ao peito e recordou-se dos contos que a mãe  lhe costumava contar sobre as desgraças de cavaleiros entregues aos feitiços de mouras encantadas. Perante estes pensamentos, olhou para o cavalo, montou-o e partiu, jurando nunca mais ali passar à meia-noite.


Assim, a moura da ponte de Chaves ali ficou para sempre encantada. E nas noites de S. João, ouvem-se os seus lamentos como castigo do amor que tivera por um cristão.



domingo, 18 de fevereiro de 2018

Porque e por que





Em português europeu, a confusão gráfica entre porque e por que deve-se à dificuldade em distinguir algumas construções. As principais construções passíveis de gerar confusão são as que se apresentam de (1) a (5).

(1) Orações subordinadas causais introduzidas pela conjunção subordinativa causal porqueNão fizemos compras porque não tínhamos dinheiro

(2) Orações coordenadas explicativas introduzidas pela conjunção coordenativa explicativa porqueEles devem ter chegado, porque o cão está a ladrar
A diferença entre as conjunções exemplificadas em (1) e (2), assim consideradas tradicionalmente (cf. Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 14.ª ed., Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1998, p. 577 e p. 581), é muito ténue. Em (1) a oração subordinada (porque não tínhamos dinheiro) apresenta uma causa para a oração principal (não fizemos compras), depreendendo-se que o motivo para a ausência de compras foi a falta de dinheiro. Em (2) a oração coordenada (porque o cão está a ladrar) apresenta uma explicação para a enunciação da primeira oração (eles devem ter chegado), não se depreendendo que o motivo de alguém ter chegado foi o facto de o cão ladrar, tratando-se apenas de uma dedução do emissor. Esta distinção pouco nítida reflectiu-se na Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (2004, Ministério da Educação - Departamento do Ensino Secundário, versão online 1.0), entretanto renomeada Dicionário Terminológico pelo Ministério da Educação, que propunha apenas a designação de conjunção subordinativa causal para porque (cf. 1). De acordo com esta classificação, porque é usado para estabelecer uma relação entre uma causa (expressa na oração subordinada) e a sua consequência (expressa na oração principal).
primeira versão da nova terminologia linguística reclassificou ainda o homónimo porque de advérbio interrogativo de causa para pronome interrogativo (o mesmo sucedendo com porquê). Tal reclassificação poderia estar relacionada com o facto de a palavra que já ser considerada tradicionalmente um constituinte interrogativo (ex.: que esperam eles?). Posteriormente, uma revisão dessa terminologia linguística restabeleceu a classificação de conjunção coordenativa explicativa (cf. 2) e de advérbio interrogativo, cujo uso se ilustra em (3).

(3) Orações interrogativas (directas e indirectas) introduzidas pelo advérbio interrogativo porquePorque esperasPerguntei porque esperas
Como no caso de outros constituintes interrogativos, a função de porque em (3) é questionar, neste caso a causa, sendo substituível por qual o motivo de/paraqual a causa de/paraqual a razão de/para. Assim, a pergunta Porque esperas? é parafraseável por Qual o motivo de estares à espera?. A resposta a esta interrogativa directa deve explicitar uma causa, sendo habitualmente introduzida pela conjunção causal referida em (1): - Espero porque o médico ainda não me chamou.

(4a) Orações interrogativas (directas e indirectas) que correspondem a um argumento introduzido pela preposição por seguida do pronome/determinante interrogativo quePor que esperasPor que peças trocaste os copos que recebeste no NatalPerguntei por que esperasNão sei por que peças trocaste os copos que recebeste no Natal
A sequência por que não tem aqui qualquer valor de causa. Efectivamente, na pergunta Por que esperas?, a preposição por pertence à regência do verbo esperar (ex.: tu esperas por alguma coisa) e o pronome interrogativo que corresponde ao argumento nominal do verbo esperar (ex.: tu esperas por alguma coisa). Assim, a pergunta Por que esperas? é parafraseável por Por que coisa esperas?.

(4b) Orações interrogativas (directas e indirectas) introduzidas pela preposição por seguida do determinante interrogativo que com nomes expressos como motivocausarazãoPor que motivo chegaram tardeIndaguei por que motivo chegaram tarde
Nestes casos, a sequência por que tem valor causal pois, ao contrário de (4a), a preposição por não pertence à regência do verbo (ou de outra classe gramatical). As respostas à interrogativa directa Por que motivo chegaram tarde? devem explicitar uma causa, sendo habitualmente introduzidas pela conjunção causal referida em (1): - Porque adormeceram.

(5a) Orações relativas introduzidas por uma preposição argumental por seguida do pronome relativo queChegou a encomenda por que esperava.
Tal como em (4a), em (5a) a preposição por é regida pelo verbo esperar e o pronome relativo que é o seu argumento nominal, sendo a sequência por que substituível por pela qualChegou a encomenda pela qual esperava.

(5b) Orações relativas introduzidas pela preposição por seguida do pronome relativo queExplicaram o motivo por que chegaram tarde.
No caso de (5b), a preposição por não é regência do verbo chegar mas introduz um complemento circunstancial de causa (ex.: chegaram tarde por motivos alheios à sua vontade). Tal como em (5a), a sequência por que é substituível por pelo qualExplicaram o motivo pelo qual chegaram tarde.

Após esta análise, e em jeito de resumo, no português europeu (de Portugal), a grafia porque é usada para explicitar uma causa, sendo substituível por poisjá quevisto quedado queuma vez que (cf. 1 e 2, onde se comporta como conjunção) e quando é substituível por qual o motivo de (cf. 3, onde se comporta como advérbio interrogativo). A grafia por que é usada quando antecede substantivos como razãomotivocausa ou afins (cf. 4b) e quando é substituível pelo sintagma por que coisa (cf. 4a) ou por pelo qual/pela qual/pelos quais/pelas quais (cf. 5a e 5b).

Convém referir que a ortografia é um conjunto de regras convencionadas, e, como tal, artificiais. A prova disso é a discrepância das normas de justaposição e de separação em Portugal e no Brasil, relativamente à escrita de porque/por que. Assim, e ao contrário da ortografia portuguesa, a ortografia brasileira preconiza porque sempre separado nas orações interrogativas (Por que mentiramNão sei por que mentiram.). Tal acontece porque a terminologia gramatical brasileira não considera a existência de um constituinte interrogativo justaposto porque, ao contrário da actual terminologia linguística portuguesa, que o considera um advérbio interrogativo (cf. 3).
O mesmo acontece com porquê/por quê. Em Portugal, escreve-se sempre justaposto quando é advérbio interrogativo (ex.: Porquê complicarDevolveu a mercadoria, não sei porquê.) ou quando é substantivo masculino (ex.: Desconheço o/s porquê/s daquele comportamento.). No Brasil, escreve-se justaposto apenas quando é substantivo; quando é usado em orações interrogativas, é escrito separadamente (ex.: Por quê complicarDevolveu a mercadoria, não sei por quê.).



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