sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A Aranha


A ARANHA


A ARANHA do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir.
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.

Fernando Pessoa





A aranha do meu destino / Fez teias de eu não pensar. O sujeito poético quer dizer que, por nunca ter pensado no seu futuro, teias de aranha ocuparam o espaço que na maioria dos homens é ocupado pela prevenção, pelo planeamento. Ele nunca planeou o seu futuro, só se preocupava com o presente e - em certa medida - pelo passado.


A referência a uma aranha é - talvez - uma subtil ironia à lenda grega das tecelãs do destino. Chamavam-se Moiras (os romanos chamavam-lhes Parcas) e eram três deusas que teciam o destino dos homens.

O sujeito lírico diz que a aranha (as deusas) não se preocuparam em tecer o seu destino, por duas razões: por ele em criança já "ser adulto sem o achar", ou seja, ter crescido de repente contra a sua vontade; a segunda razão  diz ser a rede ter-lhe apanhado "o querer ir", ou seja, o próprio presente (agora já passado) impediu que ele tivesse o destino - o destino ficou preso por causa do que lhe aconteceu quando era criança.

Assim ficou o sujeito poético, "uma vida baloiçada", como uma mosca presa numa rede, viva e só à espera da morte para desaparecer. O estar preso na rede, com a "consciência de existir", é a sua pena pelo que lhe aconteceu.


...//...

O verso ”A Aranha do meu destino”, refere-se ao rumo que a vida do sujeito lírico levou, afinal não se pode fugir ao destino.

O verso “Faz teias de eu não pensar”, de certa forma pode ser encarado como uma ironia, podemos falar no caso de quando uma casa por exemplo é desabitada, passado algum tempo a casa acaba por ganhar teias, o eu intelectualiza o pensamento, ou seja, ele pensa nas coisas da vida “não ganhando assim as teias dentro da sua cabeça”.
O sujeito poético, quando era criança “menino”, não sabia “não soube” se era feliz, pois as crianças não racionalizam, mesmo assim agora em adulto ele tem a consciência, que quando era criança era feliz, pois agora já racionaliza, vem daí “na consciência de existir”, isso vai trazer reflexos como, o seu passado (infância) ser idealizado, pois é uma época em que tudo é possível, no mundo das crianças não há impossíveis, ao contrário da prisão intelectual do presente.
Os últimos dois versos, dão a sensação de a teia ser como uma espécie de prisão.  Referem-se a algo que esteja preso, a ideia de fazer teia de muro a muro, e de ele estar na “prisão”, e ser a presa, da própria teia “suporte”, ou seja do próprio destino, nós como seres humanos, envolvemo-nos na teia para encontrar o nosso destino.


Sara Anjo, 12.º ano

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Menino Feliz





Fui directora de uma turma com dois alunos especiais. No fundo, no fundo, toda a turma era especial, devido à sua heterogeneidade. Mas estes meninos, uma menina e um menino, eram de facto especiais. Especiais no seu sorriso tímido e único, na sua extrema bondade, no seu modo bom de nos olhar. A menina, muito tímida, sempre de olhos baixos. O menino, frágil e doce, mas sempre pronto a abraçar qualquer desafio.
É bem verdade que nós, docentes e discentes, não estamos preparados para receber determinados alunos! E esta turma era um pouco problemática, cheia de alunos com histórias de vida algo complicadas e não aceitaram muito bem estes meninos especiais. 
Era uma turma complicadinha! Raramente se tratavam pelo nome. Todos tinham nomes, quanto a mim, pouco próprios. E as primeiras aulas foram uma luta constante: cada um tem um nome e só esse; somos todos iguais e todos diferentes... Não sei quantas vezes reuni com os alunos para lhes explicar as razões porque tínhamos na turma aqueles meninos; não sei quantas vezes lhes disse que todos temos os mesmos direitos; não sei quantos filmes passei sobre pessoas "diferentes". Mas venci e ganhámos todos. De repente, depois de muito ralhar, de lhes mostrar a minha desilusão, de pensar que todo o trabalho estava a ser em vão... As horas a pesquisar sobre as patologias daqueles dois seres, a procurar filmes que ilustrassem de alguma maneira a vida de pessoas como as que conviviam agora diariamente connosco... De repente, como disse, chegou toda a turma à aula, com os dois colegas. Vinham todos muito felizes! Fizeram um esquema para saberem quem ia buscar ou levar o Menino Feliz ao elevador. Decidiram quem é que ficava ao lado destes alunos nas várias aulas: tinha de ficar um bom aluno ao pé deles para os ajudar. Passaram a trazer "a tiracolo" os colegas... 
E era ver a felicidade destes dois, quando eram rodeados pelos colegas. E era ver a sua satisfação quando eram escolhidos para os vários grupos de trabalho. O Menino Feliz nunca desistia, quis sempre participar em todas as actividades... Vi-o a fazer canoagem. Vi a sua alegria por poder participar com os colegas em algumas modalidades desportivas. (Obrigada, professora Sandra, por seres quem és e por não desistires nunca de ajudares a concretizar sonhos...). Vi-o a conviver com os colegas... E vi e vejo sempre aquele grande sorriso cada vez que passava por mim nos corredores e nas aulas a que assistia.
Por vezes, o Menino Feliz faltava e o silêncio na sala de aula doía e os olhos caíam e caíam naquele lugar vago. E todos tinham medo de perguntar fosse o que fosse sobre o Menino Feliz. Mas os olhos inquiridores caíam-me em cima como facas afiadas e eu ficava, de algum modo, aflita. E de voz trémula: se tivesse acontecido algo, nós já saberíamos. "Pois é, professora, as notícias más sabem-se logo! Foi fazer algum exame ou constipou-se, está muito frio". E apareciam logo uma série de desculpas para a ausência do Menino Feliz. 
Todos sabíamos desde o primeiro dia em que o conhecemos, que um dia o Menino Feliz iria para o céu ser uma criança igualzinha a todas as outras, mas todos temíamos a chegada desse dia!
Aconteceu! Nunca estamos preparados para nos despedirmos para sempre de ninguém, muito menos de uma criança, muito menos de um Menino Feliz apesar de todas as suas limitações. A nossa consolação é, talvez, sabermos que aquele menino foi feliz enquanto esteve entre nós. Lembro-me sempre de o ver sorrir, recordo as gargalhadas que dava ao ver os filmes das aulas em que motivava os colegas para a aceitação das diferenças... 
À pergunta: estás bem? A resposta que recebi foi sempre um largo sorriso a acompanhar o sim. Daí, dar-lhe o nome de Menino Feliz.
Até um dia!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Meu caminho é por mim fora






Sebastião Artur Cardoso da Gama nasceu em 10 de Abril de 1924, em Vila Nogueira de Azeitão, tendo falecido a 7 de Fevereiro de 1952.


Licenciou-se em Filologia Românica, em 1946, na Faculdade de Letras de Lisboa, leccionando provisoriamente, dois anos mais tarde, na Escola Técnica de Setúbal.

“Serra Mãe” foi a primeira obra do poeta, que surgiu em 1945, seguindo-se, nos dois anos sequentes, “Loas a Nossa Senhora da Arrábida” e “Cabo da Boa Esperança”.

No dia 4 de Maio de 1951, casou com a amiga de infância Joana Luísa, no Convento da Arrábida, tendo sido a primeira cerimónia ali celebrada.

No mesmo ano surgiu a quarta obra, intitulada “Campo Aberto”.

A 7 de Fevereiro de 1952, Sebastião da Gama morre, vitimado por uma tuberculose renal, de que sofria desde a adolescência.

A título póstumo foram publicados, em 1953, “Pelo Sonho é que vamos” e “Lugar de Bocage na Poesia Portuguesa”, este último em resultado de uma conferência proferida em 15 de Setembro de 1950, em Setúbal.

“O Diário”, com prefácio de Hernâni Cidade, e “O Segredo é Amar” surgiram em 1958 e 1959, respetivamente.

O último livro editado,  “Itinerário Paralelo”, data de 1967.

Em 1999, a Câmara Municipal inaugurou um pequeno museu dedicado ao poeta, em Vila Nogueira de Azeitão.

Neste espaço, onde está também instalado o pólo local da Biblioteca Municipal, figuram o espólio literário e numerosos objectos pessoais de Sebastião da Gama, relacionados com a vida e obra do poeta.

Museu Sebastião da Gama
No edifício do museu Sebastião da Gama, que reúne um significativo espólio do poeta e pedagogo que lhe deu o nome, funciona também um pólo da Biblioteca Pública Municipal.
O museu inclui uma sala destinada ao serviço educativo e ao desenvolvimento de atividades de expressão dramática com crianças, uma exposição sobre Sebastião da Gama e sobre a história de Azeitão.


MADRIGAL A UMA ESTRELA 


De histórias de estrelas 
Ninguém quer saber. 
Não conto, não conto… 
Quem é que te quer, 

História da estrela 
Que fica por cima 
Da minha janela? 
Tão bela, tão bela! 

Comigo te guardo 
Na vida e na morte. 
Será um segredo… 
Será uma estrela 

Que eu leve a meu lado 
Na vida que leve… 
Escura que seja 
– que vida tão clara! 

Que noite tão branca 
A noite que eu durma 
(debaixo da terra) 
Debaixo da estrela! 

Não conto. Não digo. 
Comigo te guardo. 
Assim tu, ó estrela, 
Me guardes contigo… 

Sebastião da Gama

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida



Fanatismo

Minh‟alma, de sonhar-te, anda perdida (A)
Meus olhos andam cegos de te ver! (B)
Não és sequer razão de meu viver, (B)
Pois que tu és já toda a minha vida! (A)

Não vejo nada assim enlouquecida…(A)
Passo no mundo, meu Amor, a ler (B)
No misterioso livro do teu ser (B)
A mesma história tantas vezes lida! (A)

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”(C)
Quando me dizem isto, toda a graça (C)
 Duma boca divina fala em mim! (D)

 E olhos postos em ti, vivo de rastros: (C)
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros, (C)
Que tu és como Deus: princípio e fim!..." (D)


Florbela Espanca


Trata-se de um soneto, pois possui 4 quadras e dois tercetos, cujas estrofes são isométricas e isorrítmicas, fazendo com que seja uniforme entre si. Os versos são decassílabos, heróicos, com esquema rítmico binário, já que a tonicidade está na 6.ª e 10.ª sílabas: "Meus /o/lhos/ an/dam /CE/gos /de/ te /VER",


O esquema rimático das quadras é  ABBA, sendo, assim, rimas interpoladas em A e emparelhadas em B; nos tercetos, há o esquema CCD, sendo emparelhadas em C e interpoladas em D. Excepto os versos 12 e 13, em que rimam os nomes rastros/astros, as demais rimas são ricas. Nos versos 1, 4, 5, 8, 9, 10, 12 e 13, o ritmo dos versos é feminino e grave, nos demais, é masculino e agudo.

Recursos expressivos
Predomina a Aliteração da letra m.

Antítese: "cegos de te ver"; "princípio e fim".
Comparação: "tu és como Deus".
Repetição: "Tudo no mundo é frágil, tudo passa".
Metáfora: "misterioso livro de teu ser".
Prosopopeia: voar mundos; boca divina.
Hipérbole: "Pois que tu és já toda a minha vida"; Que tu és como Deus: princípio e fim!..."
Encadeamento: a ler - no misterioso livro do teu ser (vs. 6 e 7); toda a graça - duma boca divina fala em mim (vs. 10 e 11);



O sujeito lírico é uma mulher apaixonada que declara seu amor e que expõe com furor os seus sentimentos. Por meio de metáforas e hipérboles, o sujeito poético procura explicar a força do seu amor, um amor tão forte e avassalador que tomou conta da sua vida. A confiança do sujeito lírico na durabilidade e na permanência dos seus sentimentos é tão grande que ele chega a desdenhar daqueles que tentam alertá-lo para a fugacidade e efemeridade das coisas e dos sentimentos. 
O título do poema dá-nos a ideia da intensidade do sentimento - Fanatismo - que remete para a definição de um sentimento anormal, que beira a obsessão. O eu corrobora essa ideia no poema quando afirma que sua "alma está perdida‟, que seus olhos "andam cegos  de te ver" e ainda que anda "enlouquecida‟, e que ele, o objecto do seu amor,  já se tornou toda a sua vida: ‟Pois que tu és já toda a minha vida!".
O amor do sujeito-lírico é tão desmedido e irracional que assume ares de devoção religiosa no momento em que compara o ser amado a Deus, ou ainda, ao Deus da sua vida, que é o seu "princípio e fim". 
As características simbolistas presentes no trecho são o uso de várias figuras estilísticas (metáfora, comparação, hipérbole, paradoxo); o egotismo representado pelo amor exacerbado do eu que o impede de viver lucidamente e de ver o ser amado como pessoa de "carne e osso‟; a espiritualidade através da elevação do amor e do ser amado a um patamar superior às demais pessoas, alçando-o à condição de Deus.


Roberto Adam, 11.º ano

Facebook - ferramenta de trabalho





Anos e anos de aulas fizeram com que juntasse uma quantidade de análises de poemas/textos, elaboradas por alunos, por ex-alunos que me pedem ajuda para a realização de trabalhos "encomendados" pelos professores actuais. E há também outros alunos que se metem comigo no Facebook, para me pedirem ajuda, por saberem que estou sempre disponível para colaborar. Muitos vêm indicados por ex-alunos: "Desculpe, não me conhece, mas sei que é professora e que costuma ajudar os alunos em trabalhos e análises de textos, através daqui e de email. É que tenho de fazer uma análise do poema... e preciso mesmo de ter boa nota..." 
E logo é marcado um horário para nos encontrarmos na rede social, trocamos e-mails... E começa a troca de correspondência, o vai-e-vem de mensagens, as dicas, as correcções... até se chegar ao produto final. Passados alguns dias, os alunos informam-me da nota obtida e agradecem muito. Recomendam-me a outros colegas e, quando voltam a ter algum trabalho que necessite de alguma revisão, reaparecem...
O Facebook veio aproximar muito umas pessoas e afastar também umas tantas outras... Para mim, é uma óptima ferramenta de trabalho.
A dar volta à papelada que se junta, às pastas que se acumulam no computador primeiro, depois na pen e, finalmente, no disco rígido externo...,  dei com montanhas de trabalhos que tenho vindo a guardar e decidi publicar aqui os melhores. Quem sabe, servirão de inspiração a alguém.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Para atravessar contigo o deserto do mundo


Para atravessar contigo o deserto do mundo 
Para enfrentarmos juntos o terror da morte 
Para ver a verdade para perder o medo 
Ao lado dos teus passos caminhei 

Por ti deixei meu reino meu segredo 
Minha rápida noite meu silêncio 
Minha pérola redonda e seu oriente 
Meu espelho minha vida minha imagem 
E abandonei os jardins do paraíso 

Cá fora à luz sem véu do dia duro 
Sem os espelhos vi que estava nua 
E ao descampado se chamava tempo 

Por isso com teus gestos me vestiste 
E aprendi a viver em pleno vento 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto' 






Este poema assenta toda a sua estrutura na repetição, no eco, através da acumulação de fórmulas semelhantes, quer por anástrofe, quer por repetição:
Para      atravessar contigo o deserto do mundo
             enfrentarmos juntos o terror da morte
             ver a verdade
             perder o medo
meu      reino
            segredo
            silêncio
            espelho
minha   rápida morte
            pérola redonda e seu oriente
            vida
            imagem
sem     véu do dia duro
            os espelhos
O sujeito lírico, entrega-se totalmente nas mãos de um “Tu”, aparentemente superior, reconhecendo a sua nudez humana (“Sem os espelhos vi que estava nua / E ao descampado se chamava tempo”).
Declara na 1.ª estrofe o grande e único objectivo da sua vida: superar a condição dura (“atravessar (…) o deserto do mundo”), temporal, terrífica (“terror da morte”) da vida e do mundo; vencer os obstáculos do medo (“perder o medo”) e encontrar a verdade (“ver a verdade”), contando com a ajuda de um “Tu” para a realização deste objectivo (“Ao lado dos teus passos caminhei”). 
Para isto, tal como mostra a 2.ª estrofe, o sujeito poético deixa/larga tudo o que possuía – tesouros (“meu reino”, “minha pérola”), o seu “segredo”, as suas ilusões (“meu espelho”, “minha imagem”, ou seja, a vida – aquilo que constitui o seu paraíso (“abandonei os jardins do paraíso”). 
Por mais diversas que sejam as palavras à volta de “meu” ou “minha”, elas mostram um único sentido da vida, o efémero, o temporal, o contingente, o artificial.
Parece estranho o "eu" abandonar tudo o que é seu, o que o torna individual: este despir-se de si mesmo. A finalidade deste acto, no entanto, já nos foi dita na 1.ª estrofe – a procura da intemporalidade, da essência, do eterno, e da verdade.
Em síntese, as duas primeiras estrofes dizem:
Ao lado de teus passos caminhei
Por ti deixei
E abandonei os jardins do paraíso
Três acções passadas, situadas num tempo intermitente e passageiro e que se encadeiam umas nas outras.
Um tempo de lamentação, como é sugerido pela repetição do ditongo “ei”, resultante do encontro com a nostalgia provocada por uma não solidão aparente (“ao lado dos teus passos”) que se vem a verificar realmente solidão, resultante do abandono da sua individualidade. 
A situação abstracta (o despir-se de si mesma) sobrepõe-se à concreta (a companhia física do “Tu”). 
A solidão impõe-se e o Eu enfrenta-se, o advérbio “cá”, que inicia a 3.ª estrofe, cria dois espaços do poema. “Cá” é o início dum tempo, um outro em que o Eu – despido do que é finito – se enfrenta a si mesmo, à sua essência, deixando de ser cego mas sim estando “à luz” e “sem véu do dia duro / sem os espelhos” vê-se liberto – “vi que estava nua” – este é o encontro por excelência, o encontro consigo. 
A última estrofe conclui o processo iniciado valorizando, através da antítese metafórica da nudez e do acto de se vestir (“estava nua” versus “me vestiste”), a aprendizagem espiritual da autêntica liberdade e da resistência à adversidade: “E aprendi a viver em pleno vento”. 
O sujeito poético subtrai-se da exigência das leis rígidas do espaço e do tempo em que se encontrava enclausurado, como que numa redoma (“nos jardins do paraíso”), passando a estar no “descampado [que] se chamava tempo”, nesta mudança está implícita a total liberdade.
A mudança do tempo verbal capta a nossa atenção e, de uma situação temporal determinada pelo pretérito perfeito, passa-se a uma situação de atemporalidade (mostrada pelo pretérito imperfeito).
O dístico final do poema presentifica a consubstanciação do “Eu” com o “Tu” (“com teus gestos me vestiste”) realizada depois do algo atingido (“por isso”); da total libertação, em comunhão perfeita com o “Tu, o eu aprende “a viver em pleno vento”.
É aqui que se finda a passagem de uma vida virtual, criada pelos espelhos, para uma vida real. Esta essência tem a sua leveza sugerida pela aliteração do /v/ presentes depois da partícula “Cá”, isto é, após a libertação, após a transformação. 

Concluindo, o poema transmite a ideia de que nunca devemos viver na ilusão apesar de aparentemente isso nos parecer mais cómodo, uma vez que nessa “realidade” estamos presos num mundo virtual. Devemos sempre ver o Mundo de uma forma clara, ou seja, sermos verdadeiramente livres. As pessoas que nos amam realmente são aquelas que nos ajudam a sair do mundo de “mentira”, e não aquelas que nos ajudam a construir as ilusões.

Tiago Branco, 10.º ano

domingo, 8 de janeiro de 2017

Cesário Verde - Deambulismo - O Sentimento dum Ocidental



O Sentimento de um Ocidental é um poema dividido em quatro momentos: Ave-Marias, Noite Fechada, Ao Gás, Horas Mortas. Trata-se da reconstituição de um passeio solitário que o sujeito poético faz num sábado de lazer, descrevendo, ao longo do seu passeio, tudo o que vai observando, em especial as pessoas e os espaços em que elas se movimentam.
Este poema, considerado como uma "epopeia às avessas", dá-nos uma visão da cidade como metáfora do Ocidente, paradigma de um pretenso progresso e desenvolvimento.


Ave-Marias


A primeira parte do poema situa-se ao fim da tarde ("ao anoitecer"), à hora em que os sinos das igrejas chamam para a oração vespertina - a ave-maria.
O sujeito poético, à medida que deambula pelas ruas junto ao Tejo, descreve vários espaços citadinos - edifícios em construção, "boqueirões", "becos", "varandas", "arsenais", "oficinas", "hotéis da moda" -, referindo as "personagens urbanas" que neles se movimentam - "carpinteiros", "calafates", "dentistas", "obreiras", "varinas", "um trôpego arlequim", "os querubins do lar", "os logistas". Em relação ao grupo de personagens descrito, é evidente a simpatia solidária que o sujeito poético revela para com as personagens populares, com destaque especial para as varinas que "... embalam nas canastras / Os filhos que depois naufragam nas tormentas" e que trabalham "(...) Nas descargas do carvão, / Desde manhã à noite, (...) / E apinham-se num bairro aonde miam gatas, / E o peixe podre gera os focos de infecção!" A impressão geral que decorre desta primeira descrição da cidade é de que se trata de um espaço soturno e melancólico, pouco luminoso, que apresenta uma "cor monótona e londrina", despertando no "eu" sentimentos contraditórios - "E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!"
Nesta primeira parte do poema, é também nítida a oposição entre o real e a fantasia. Na verdade, face a uma realidade que lhe desperta "um desejo absurdo de sofrer", o sujeito poético anseia partir para outras dimensões, e exprime o seu desejo de evasão:
  • para outros espaços reais: "Levando à via-férrea os que se vão. Felizes! / Ocorrem-me em revista exposições, países: /Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!";
  • para outros tempos, outras glórias - "Evoco, então, as crónicas navais: / Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado! / Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado! / Singram soberbas naus que eu não verei jamais!".
Esta evocação das grandezas passadas aparece logo seguida da referência ao "couraçado inglês" que, no Tejo, ocupa agora o lugar das naus de quinhentos (Cesário Verde era um republicano convicto que via de forma muito crítica a ingerência inglesa na política, sobretudo a colonial, portuguesa. O Ultimatum Inglês data de 1890).


Noite Fechada

O sujeito poético continua o seu percurso, observando a realidade que o rodeia, enumerando os novos espaços que observa:
  • as cadeias
  • o Aljube
  • a "velha Sé"
  • os andares
  • as tascas
  • os cafés
  • as tendas
  • os estancos
  • as igrejas
  • "as íngremes subidas"
  • "o recinto público e vulgar"
  • "um palácio em face de um casebre"
  • os quartéis
  • as "montras dos ourives"
  • os magasins
  • a brasserie
Destes espaços mórbidos, pouco iluminados, desprende-se uma sensação de enclausuramento, de solidão, de pessimismo progressivo - "E eu desconfio, até, de um aneurisma / Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes", "Chora-me o coração que se enche e que se abisma.", "E eu sonho o Cólera, imagino a Febre", "Triste cidade! Eu temo que me avives / Uma paixão defunta!".
Surgem, então, novas figuras citadinas, a que o sujeito poético se refere como "uma acumulação de corpos enfezados" - presos, velhinhas, crianças, soldados, as elegantes, as costureiras, as floristas ("E muitas delas são comparsas ou coristas") e os emigrados que jogam dominó.
O tom melancólico e disfórico presente na descrição da cidade não nasce apenas do relato dos espaços e das personagens que neles evoluem, mas também do tipo de sensações empregues pelo sujeito poético para concretizar essa mesma descrição:
  • auditivas - "Toca-se as grades, nas cadeias. Som / Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!", "E os sinos dum tanger monástico e devoto.", "... ao riso...";
  • visuais - "... ao acender das luzes", "à crua luz";
  • térmicas - "Derramam-se por toda a capital, que esfria".
Nesta segunda parte, face à desolação e à soturnidade do presente, o sujeito poético também evoca o passado ("Assim que pela História eu me aventuro e alargo") através do "severo inquisidor", do "épico de outrora" e da Idade Média.


Ao Gás

O deambular progressivo do sujeito poético permite-lhe completar o quadro citadino. Novos espaços e personagens são referidos:

Espaços
  • os "passeios de lajedo"
  • os "moles hospitais"
  • as "lojas tépidas"
  • a "catedral de um comprimento imenso"
  • o "cutileiro"
  • a "padaria"
  • as "casas de confecções e modas", com longos balcões de mogno
  • as "longas descidas" e as esquinas
Personagens
  • "as impuras"
  • as "burguesinhas do Catolicismo"
  • "o forjador"
  • um "ratoneiro imberbe"
  • "a lúbrica pessoa"
  • uma "velha, de bandós!"
  • "os caixeiros"
  • "um cauteleiro rouco"
  • o "velho professor (...) de latim"
Esta longa enumeração, para além de pormenorizar o retrato da cidade, reitera alguns dos aspectos característicos da poesia de Cesário Verde, como:
  • a valorização do campo, presente na única nota eufórica desta parte - o "cheiro salutar e honesto a pão no forno" que sai de uma padaria;
  • a presença de uma figura feminina que subverte os cânones poéticos da época - "as impuras";
  • o anticlericalismo presente na referência ao histerismo das freiras;
  • a solidariedade social presente na referência ao facto de o seu "velho professor (...) de Latim" estar transformado num pedinte.
Tal como nas duas primeiras partes, o sujeito poético descreve a cidade de modo sensorial, recorrendo a:
  • sensações tácteis - "(...) A noite pesa, esmaga. (...) / Um sopro que arrepia os ombros quase nus";
  • olfactivas - "Um cheiro salutar e honesto a pão no forno";
  • visuais - "E a vossa palidez romântica e lunar!";
  • auditivas - "Da solidão regouga um cauteleiro rouco".
O sujeito poético sublinha que o real é motivo de inspiração poética - "E eu que medito um livro que exacerbe. / Quisera que o real e a análise mo dessem".


Horas Mortas

A quarta parte do poema corresponde ao momento final do percurso do sujeito poético, percurso esse que se vai progressivamente tornando mais angustiante e fechado.
Assim, estamos no domínio total da noite, as estrelas brilham no céu - "Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras" - e "os guardas, que revistam as escadas, / caminham de lanterna (...)".
Este é também o momento em que as personagens marginais dominam a cidade: as "imorais", os assassinos, os "tristes bebedores", os "dúbios caminhantes" e até os cães, que se transformam em lobos - "E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes, / Amareladamente, os cães parecem lobos".
É também o momento em que o espaço se torna agressivo para o sujeito poético, essa agressividade está presente:
  • no colocar dos taipais e no ranger das fechaduras;
  • na consciência de que a cidade é uma prisão, uma antecâmara da morte - "Mas se vivemos, os emparedados. / Sem árvores, no vale escuro das muralhas!..."; "prédios sepulcrais";
  • no sentir de um nojo físico pela cidade - "Nauseiam-me (...) os ventres das tabernas".
Face a esta cidade opressiva, o sujeito poético apenas pode:
  • evocar a beleza e a serenidade do campo - "Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas, / As notas pastoris de uma longínqua flauta";
  • expressar desejos impossíveis ou de difícil realização - "Se eu não morresse, nunca! E eternamente / Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!";
  • esperar o regresso da grandeza perdida - "Nós vamos explorar todos os continentes / E pelas vastidões aquáticas seguir!"
O poema conclui com uma nota claramente disfórica: a cidade é, inevitavelmente, o espaço onde "A Dor humana busca os amplos horizontes, / E tem marés, de fel, como um sinistro mar!".



"O "Sentimento dum Ocidental" é a investigação definitiva de Cesário Verde sobre a cidade. O poema regista as percepções e as impressões de um observador caminhando nas ruas nocturnas da cidade, um narrador que descreve um passeio solitário que não é apenas um movimento no espaço das ruas da cidade; é também um processo no tempo, uma viagem para dentro da noite durante a qual o narrador penetra e confronta o mundo simbólico de sombras reais que é a cidade nocturna. A cidade é Lisboa; o sentimento do título é o do narrador, natural do extremo ocidental da Europa, um português. Mas a cidade também representa o todo da civilização ocidental a que Portugal pertence; e o sentimento que ela provoca é ao mesmo tempo um produto dessa civilização e um protesto contra ela."

Hélder Macedo, "Nós" - Uma Leitura de Cesário Verde

in Colecção Resumos da Porto Editora

Dúvidas: Avé-Maria ou Ave-Maria?

Embora a expressão “Avé Maria” exprima melhor a forma como as pessoas a pronunciam, há que salientar que a expressão, de origem latina, é Ave, com o sentido de salve, saúde. Por isso, deve escrever-se sem o acento. A propósito ainda desta expressão, deve referir-se que quando serve para designar a oração correspondente, aconselha-se a que esta seja distinguida com hífen (ave-maria) para permitir o uso do plural.
Por exemplo: “Ave Maria cheia de graça”, "Vou rezar uma ave-maria" e “Já rezei três ave-marias.”


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A Joana



A Joana. Há muito que não via a Joana. Vi-a. Não, não a vi. Se ela não me chamasse, não a teria reconhecido. A voz. Foi a voz. Nunca vou esquecer a sua voz...

Conheci a Joana, quando "herdei" uma turma de uma colega que foi colocada algures, depois de uns bons anos na minha escola. Coisas incompreensíveis! 
A Joana chegou à primeira aula e sentou-se do outro lado da sala, no lugar oposto à minha secretária, perto da porta, como se quisesse fugir dali o mais depressa possível. Estava vestida de preto. Acho que nunca a vi vestida de cores claras. Também nunca a vi de calças! Era bem constituída, bonita, sorridente.
- Por que razão não é a professora R. a nossa professora? - perguntou, um tanto zangada.
Encolhi os ombros, não estava com vontade de dar explicações, de falar de  assuntos que não eram meus...
- Para mim, a professora R. é a melhor professora que eu já tive! Ah, e vai continuar a sê-lo.
- Não sejas parva, Joana, ainda não conheces a professora! Pode ser tão boa como a prof do ano passado ou até melhor!...
- E pior não pode ser? Se temos uma professora ou professor de que gostamos, não deviam mudar...
- Pronto, Joana, já todos percebemos a tua revolta, mas não podemos fazer nada. Eu vou ser tua professora, tu vais ser minha aluna. É só um ano, não é uma vida...
Foi a vez da Joana encolher os ombros e de fazer um sorriso meio amarelo, muito contrariado.
A Joana era boa aluna e fazia questão de fazer saber que esta ou aquela matéria lhe tinha sido ensinada pela professora R. Entretanto, acabaram as revisões, surgiram novos conteúdos e a Joana quis mudar de lugar. Pretendia sentar-se mesmo à minha frente. A meio do primeiro período, já ninguém queria trocar de lugar! Todos se sentiam bem onde estavam, menos a Joana que insistia e insistia em vir para perto da minha secretária. 
- Não querias ver a professora nem pintada e agora queres que eu saia do meu lugar para te sentares mesmo à frente da prof!...
Todos os dias, a Joana pedia para mudar de lugar, e a insistência foi tal, que tive de colocar mais uma mesa na fila da frente para a instalar. E houve ainda outro colega que lucrou com a situação e que se apoderou logo da segunda vaga.
- Se eu mandasse, mandava pôr só mesas à frente!
Resolvida esta questão, as aulas decorreram sempre muito bem. A turma era óptima! Os melhores alunos faziam questão de ajudar os mais fracos...
No final do ano, a Joana veio pedir-me desculpa. A sua animosidade não era contra mim, era contra o sistema que estava sempre a mudar as regras a meio do jogo...
- A professora é óptima! É uma óptima professora, óptima pessoa, óptima ouvinte, óptima conselheira... Dificilmente encontrarei outra professora assim. Gostei muito de ser sua aluna e, já agora, agradeço ao sistema por me ter dado a oportunidade de a conhecer e de a ter como professora.

Esta turma foi um presente que eu tive nesse ano. Fomos ao teatro, fomos ao cinema, participámos em mil actividades. Estes alunos estavam sempre disponíveis a abraçar qualquer projecto. A Joana ganhou as Olimpíadas da Leitura do 9.º ano, a Ana Beatriz do 7.º ano, do 8.º não me lembro da aluna. Eu só tinha sétimos e nonos, a Joana e a Ana eram minhas alunas. 
A final do concurso foi na Nazaré. De manhã, fizeram-se as provas. Eu e a I., a professora bibliotecária, esperámos pelas nossas meninas. Depois, fomos almoçar todas. A I. teve de acompanhar a menina do oitavo ano e eu fiquei com as minhas alunas. Tínhamos duas ou três horas. Decidimos ir passear, ir até à praia. Estava muito vento e o frio também não era pouco. O vento levantava a areia e cegava-nos. Desatámos a correr e a rir até à marginal. Fomos ver as montras das lojas de roupa, sapatos, malas... Numa montra estava já a colecção de Primavera/Verão. As cores claras aqueciam aquele tempo fresquinho de mais para o nosso gosto. A Ana teve a ideia de entrarmos na loja. A Joana concordou logo! Entrámos, fomos vendo as sandálias, as malas, as écharpes... Comentávamos este ou aquele acessório. Ríamos. Experimentámos chapéus!
- Professora, estas sandálias são mesmo a sua cara!
- A senhora é a professora destas meninas? - perguntou a funcionária.
Assenti.
- Sério?
- É a nossa professora de português.
A rapariga ficou de boca aberta a olhar-nos e nós olhámos umas para as outras e desatámos a rir.
- Professora, experimente estas sandálias - insistia a Ana.
- Esta mala fica bem com as sandálias... - reforçava a Joana.
- Por acaso, gosto das vossas propostas, são realmente a minha cara.
- Vai usar-se muito o salmão... - acrescentou a funcionária.
E ali estivemos um pedaço de tempo as três a experimentar sandálias, chapéus, luvas... Fizemos o nosso desfile!
- Professora, compre alguma coisa de que goste para se lembrar para sempre desta tarde e de nós.
E comprei as sandálias que a Ana escolheu e a mala que a Joana aprovou. Ainda hoje tenho ambas as peças que me recordam uma tarde fria, ventosa, mas quente de emoções e de carinho.
No outro dia toda a escola soube o que tinha acontecido na Nazaré.

Encontrei, então, a Joana!... Melhor, a Joana encontrou-me. Reconheci-a pela voz! Estava muito diferente, mais magra, menos sorridente. Só a roupa era igual, preta.  Estava decepcionada com a sua escola actual, com os professores, com tudo. Não se conseguia identificar com a nova realidade. 
- E as notas, Joana!
- Nada de especial, professora. Podiam ser melhores! Eu sei! Mas custa-me tanto levantar-me todos os dias para ir para a escola. Sabe que no princípio das aulas, por duas ou três vezes, me enganei e só já bem perto da nossa escolinha é que vi que não era para ali que eu tinha de ir...
Às vezes, nas aulas, só me lembro de si, do seu sorriso, da sua voz e das suas aulas "tão limpas, tão leves". Só me lembro de todos os professores da nossa escolinha, dos funcionários... Nada é igual! São todos tão pouco simpáticos, são todos tão "doutores"... 
Suspirou. Respirou fundo e prosseguiu:
- São só nossos professores e nada mais! Na rua não nos cumprimentam, somos invisíveis... 
Sabe, estou a pensar mudar de curso, mas o que eu gostava mais era de mudar de escola. A maior parte das aulas são uma seca! O que interessa é termos boas notas! Anda toda a gente ou quase toda na explicação porque o que conta são as notas, são os números... Mas, em primeiro lugar, o que devia contar em primeiro lugar eram as pessoas! Era o que a professora dizia! Eu lembro-me muito bem de tudo o que a professora nos dizia... E tenho saudades! Há uma expressão sua de que nunca vou esquecer: "É melhor aprenderem com os erros dos outros, dói menos!" 

Eu também tenho saudades da "velha" Joana, da nossa escolinha e das pessoas dessa "velha escolinha".

Sei, Joana, que já encontraste o teu caminho. Quero voltar a encontrar-te com aquele grande sorriso a enfeitar a tua cara bonita.